DO CONCEITO DE JUSTIÇA AOS SCORES
Rui Barbosa, em sua rara clareza e inteligência, costumava conceituar
Justiça, naquilo que a mim parece ser a sua definição universal mais
transparente e inteligível, como: “tratar
desigualmente aos desiguais, na medida de sua desigualdade”.
Dentre as diversas maneiras possíveis de encarar o que seja justo ou
injusto, sempre ressaltará a noção clara de que há entre sua prática e a
massificação normalizadora das diferenças individuais pela média, uma contradição em termos: não se opera justiça sem que
sejam ponderados os valores, méritos e deméritos a cada indivíduo, no exercício
de sua indelével liberdade de escolha em cada atitude como cidadão.
Nessa linha, é de tal e tanto que falamos quando avaliamos os processos
de gestão de crédito e risco tomados pelas médias estatísticas de nossos
portfolios, à falta de ferramentas de gestão mais acuradas.
Senão, vejamos: em uma dada carteira de crédito, imputamos uma taxa média
de juros de, por exemplo 9% a.m., que serve, na média, para sustentar as perdas
e garantir a lucratividade, certos de que haverá clientes rentáveis e clientes
de “risco” a serem equilibrados na resultante da equação. Claro que, em algum
momento, de algum modo, os melhores clientes aqui estarão sustentando os
piores... e que, ao longo do tempo, esses clientes não resistirão a ofertas da
concorrência mais generosas e mais aderentes ao seu perfil de risco....
Pano rápido. Você agora acaba de chegar aos Estados Unidos, levado como
executivo de sua empresa. Tem ocupação
certa, lastro de uma corporação de primeira linha e um salário anual
respeitável.
Por melhores que sejam suas credenciais, falta-lhe um atributo
sócio-econômico acerca do qual você provavelmente não fazia sequer uma remota
idéia da existência, que dizer de sua relevância: você não tem histórico de
crédito!
O tema lá é sério e você só vai realmente perceber no dia em que o Banco
onde você acaba de abrir sua conta não lhe concede um cartão de crédito: tem
que ser um Secured Card!
Vão passar uns quantos meses de compras e pagamentos reconhecidos pelo
sistema até que você possa começar a usufruir das primeiras benesses do tão
sonhado sistema de crédito, moto contínuo e propulsor da maior economia do
planeta.
Tudo está engenhosamente gerenciado pela inteligência de comportamento
de crédito, armazenada e construída a cada nova compra, a cada novo pagamento e
a cada financiamento. O ingresso geralmente será mesmo um Secured Card, em que
a linha de crédito está garantida por um depósito de mesmo valor no Banco
emissor, até que aos poucos, mês a mês, fatura a fatura, esse depósito vai
sendo desonerado e substituído pela mais irrefutável das garantias do
cidadão-consumidor: seu histórico de crédito, resumido e evidenciado em seu score.
Moeda corrente e de uso cotidiano por aquelas paragens, o score é parte
da própria identidade do consumidor, que busca conhecer e progredir em seu
rating pessoal, como ferramenta de obtenção de melhores taxas de juros, acesso
a linhas de financiamento diferenciadas de longo prazo e a ofertas mais
atrativas e competitivas de crédito, na proporção crescente direta da sua
progressão nos rankings de escoragem.
Claro, o score é individual e intransferível. Assim como o direito de
acesso a crédito e inserção na economia. Uma conquista meritocrática pessoal
dada por critérios estatísticos transparentes e de domínio público.
É certo que Rui Barbosa não viveu para ver. Mas tenho a suspeita de que
ele reconheceria nos scores uma interessante ferramenta
para, com eficácia, tratar desigualmente aos desiguais, na medida de suas
desigualdades.
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